Dostoiévski e o império
Em toda obra de Dostoievski chega um momento que me traga pra dentro da narrativa. Em “Recordações da Casa dos Mortos”, é na parte da revolta na prisão. As reclamações dos presos sobre a comida escalam até a desobediência organizada. Mesmo sabendo da punição severa que se abateria sobre os participantes, o narrador-protagonista Goryanchikov resolve se unir aos rebelados. O entusiasmo de estar junto dos irmãos de cadeia é frustrado logo a seguir, quando Goryanchikov é rejeitado pelo grupo. Ele não pertence. Desolado, vai juntar-se aos presos que não aderiram ao movimento, na segurança da cozinha prisional.
AOS CALUNIADORES DA RÚSSIA
É o nome de um dos poemas patrióticos mais famosos de Alexandre Pushkin. A invasão putinista na Ucrânia desencadeou uma onda de cancelamentos da literatura russa. Deveríamos era fazer o contrário. Deveríamos ler e reler incessantemente os russos à luz da invasão, inclusive para separar o joio do trigo e compreender de que maneira, do interior das obras, as linhas imperiocêntricas estejam presentes. O vício da cultura do cancelamento é cancelar sem ler ou então superestimando aspectos biográficos em detrimento das obras mesmas. Já adianto que ao longo de minha juventude mantive com a literatura russa oitocentista uma relação de fervor.
Orlando: desafios da fluência narrativa entre livro e filme
“O que o futuro traria, somente os céus sabiam. A mudança era incessante, a mudança talvez não cessasse nunca. Altas muralhas de pensamentos, hábitos que tinham parecido duráveis como pedras, caíam como sombras ao toque de um outro espírito e deixavam o céu desnudo, com estrelas brilhando.”[1]
Prefácio para o Livro “O Making da Metrópole”
A publicação do livro O Making da Metrópole. Rios, Ritmos e Algoritmos nos conduz a uma trama instigante e oportuna. Primeiro, porque nos coloca diante de um balanço de mais de três décadas de globalização desde a queda do muro de Berlim e, consequentemente, daposição de destaque da metrópole nesse campo de transformações. Segundo, porque nos apresenta, sem cerimônia, as linhas políticas, econômicas, sociais e culturais que, tanto se consolidaram como paradigmas, quanto se tornaram tendências, isto é, devires. Por fim, todo esse panorama não escapa daquilo que está diante de nós, mas que se tornou difícil de encarar: a experiência metropolitana do Rio de Janeiro pós-ressaca dos grandes projetos urbanos, implementados durante a governança de esquerda e promovidos no calda dos megaeventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016) e do ciclo dos commodities (2000-2014).
Saídas Kafkianas: uma leitura sobre o conto “Um Relatório para a Academia”
Franz Kafka, nascido em Praga, na atual República Tcheca, é considerado um dos escritores mais influentes do século XX. A Metamorfose e O Processo são alguns de seus escritos mais famosos os quais abordam temas como, por exemplo, a alienação e a brutalidade do poder. Aqui no Brasil, no início de 2019, ficou muito popularizado quando o seu nome foi “imprecionantemente” confundido pelo então Ministro da Educação com o de um alimento preparado com carne moída: a cafta.
Luto e Precariedade: entre vidas vivíveis e não enlutáveis
O Núcleo de Estudos do Comum – NEC, vinculado à Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, coordenado pelo Professor Doutor Fernando Hoffman, promoveu no dia 05 de maio de 2021 o Webniário “Biopolíticas em Comum”, e contou com a participação da Professora Doutora Carla Rodrigues (UFRJ), uma das principais revisoras técnicas das obras de Judith Butler traduzidas para o português. Participou ainda, como debatedor, o Professor Doutor Maiquel Wermuth (UNIJUÍ). Assim, o texto que segue reúne algumas impressões e pressupostos a partir da conferência apresentada pela professora, intitulada “Violência, Luto e Precariedade: da biopolítica à necropolítica a partir de Judith Butler”.
Makunaíma herói pemon: contribuições a partir de Lúcia Sá
O texto “Macunaíma (1928)”, de Lúcia Sá (Universidade de Manchester), faz parte do livro “Literaturas da Floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana”, publicado em 2012 pela editora da UERJ. A obra sistematiza as pesquisas da autora sobre diversas literaturas e apresenta um guia para a compreensão da narrativa ameríndia. Lucia Sá percorre as tradições orais da Floresta Amazônica, perpassando por diversas regiões brasileiras e pelos países que fazem fronteira com o nosso. Originalmente publicada em inglês, a obra é dividida em quatro partes: Roraima e os Caribes; O grande território dos tupis-guaranis; A confluência do Rio Negro; Os arauaques do Alto Amazonas. Nesse percurso, a autora revisita algumas obras de grandes escritores a fim de destacar a intertextualidade com as narrativas indígenas.
“Nós, vitorianos”?: entrelaçamentos entre sexualidade, poder e saber na obra de Michel Foucault
Por: Marina Gomes de Oliveira O presente texto tem como objeto de análise e cotejo a obra A História da Sexualidade I: A Vontade de Saber, de Michel Foucault, e a introdução da Microfísica de Poder, escrita por Roberto Machado e intitulada Por uma genealogia do poder. No que diz respeito à primeira obra, a abrangência de seu escopo nos conduziu a restringir nossa análise ao capítulo Nós, Vitorianos, no qual o autor traça um amplo panorama dos temas de que tratará ao longo da
O tecido social e as relações de poder
Por: Alanna Medeiros Martins Os intrincados textos de Michel Foucault capturam o princípio norteador das relações de poder e as direções em que essas se estabelecem. Na presente análise, desenvolver-se-á uma relação entre os livros “História da Sexualidade: a vontade de saber” e “O nascimento da biopolítica”, observando seus pontos de interseção com as redes de poder. Não obstante, faz-se referências pontuais à outras obras que possuem posições que se coadunam e complementam. A preferência pelas obras citadas possui o intento de evidenciar a transposição
Foucault e a Instituição Prisão
Por: Penha Lopes Teixeira 1. INTRODUÇÃO Este trabalho pretende relacionar os capítulos Instituições completas e austeras e Os recursos para o bom adestramento do livro Vigiar e Punir – Nascimento da prisão, escritos pelo filósofo Michel Foucault, com o capítulo 4 do trabalho de final de curso intitulado A violação do direito à saúde para mulheres encarceradas, escrito pela estudante de Direito Giulia Soares. O objetivo é refletir sobre a instituição prisão, partindo de textos de um autor célebre que realizou um estudo importante sobre









