Ana Júlia do Nascimento Campos(Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)

Alecrim, é para recordação. O apelo de Ofélia à corte para que se lembre tem um toque de melancolia. Como o alecrim fazia parte das coroas de flores, serve também como um aviso para sua morte trágica.
Introdução
Na Antiguidade Clássica, as flores transcendiam sua mera beleza estética, possuindo um profundo significado religioso e social. Elas eram amplamente utilizadas na confecção de coroas para celebrar vitórias, homenagear atletas e decorar participantes de banquetes. Mais do que isso, eram intrinsecamente associadas a divindades e mitos. Dessa forma, oferecer uma flor a alguém era uma ação carregada de simbolismo, uma invocação às qualidades da divindade a ela associada..
Posteriormente, a prática de atribuir significados às flores como forma de comunicação se propagou e refinou no Oriente. Através de buquês específicos, os amantes e poetas persas trocavam mensagens de amor, saudade e desejo, codificando emoções que a rígida etiqueta social não permitia expressar abertamente. Essa tradição influenciou profundamente a cultura otomana, e foi através de viajantes e embaixadores europeus que relatos dessas práticas chegaram ao Ocidente, plantando a semente do que viria a ser a floriografia vitoriana.
Por fim, esse simbolismo milenar foi codificado em almanaques, dicionários florais e livros de etiqueta, sendo massivamente popularizado na Era Vitoriana e gerando a chamada “floriografia”. Nesta época, regida por um rígido código de conduta, a comunicação direta de emoções, especialmente em assuntos do coração, era considerada vulgar e imprópria, particularmente para as mulheres. A floriografia tornou-se, então, uma ferramenta social crucial. Era muito comum a troca de “buquês de mensagens” (tussie-mussies), pequenos arranjos de flores e ervas cuidadosamente selecionadas, que carregavam mensagens complexas. Sendo assim, cada encontro social e cada presente floral era, na verdade, uma conversa silenciosa e enigmática.
É precisamente neste contexto que uma análise da linguagem shakespeariana através do significado oculto das flores demonstra grande relevância. Embora Shakespeare tenha escrito antes da codificação vitoriana, ele operava dentro de uma tradição simbólica já bem estabelecida. Examinar suas obras com essa lente não apenas enriquece o entendimento de seus artifícios de linguagem e metáforas, mas também pode revelar detalhes sobre a misoginia histórica e intrínseca da sociedade patriarcal. Na peça “Hamlet”, Ofélia, em sua loucura, distribui flores com significados profundos: alecrim (recordação) para a corte, clamando, com um toque de melancolia, que a corte se lembre do antigo e justo rei; amores-perfeitos (intimamente ligados à memória, de manter as pessoas em seus pensamentos, assim, simbolizando o seu luto); funcho (se refere à falsa bajulação e ao engano da corte, muito presente ao longo da peça); aquilegia (pode ser uma maneira sutil de chamar o Rei e a Rainha de adúlteros); arruda (um chamado para que aqueles ao seu redor se arrependam de seus atos malignos do passado); margaridas (representam a inocência perdida, pois nota-se que Ofélia cita a margarida, mas não a entrega, sugerindo que o tribunal carece de inocência e pureza) e violetas (simbolizam fidelidade e amor e, como Ofélia não tem nenhuma para dar à Rainha, ela expõe a infidelidade da Rainha. Além disso, ela diz que as violetas murcharam todas quando seu pai morreu, indicando que o amor não é mais possível neste cenário caótico e em meio ao luto). Suas ações não são meramente poéticas; são a única forma de uma mulher, destituída de poder e sanidade, poder acusar a corte de sua corrupção.
Isto é, uma mulher, como Ofélia, não possui autonomia para expressar suas ideias e opiniões diretamente à corte. Ela é silenciada, reduzida a um objeto de troca política e emocional entre os homens. Para transgredir esse silêncio imposto, ela necessita se valer de artifícios enigmáticos. As flores tornam-se sua voz não-autorizada, um meio de comunicação subversivo que permite a expressão de verdades perigosas sob o disfarce da fragilidade e da loucura. Dessa forma, a floriografia, aparentemente um jogo romântico e delicado, expõe uma realidade opressiva: em uma sociedade que nega a agência feminina, a linguagem indireta e codificada torna-se uma arma de sobrevivência e resistência.
Objetivos
Os objetivos desta investigação se desdobram em três dimensões principais, que convergem para uma compreensão mais profunda da relação entre literatura e sociedade. Em primeiro lugar, busca-se mapear a trajetória histórica e cultural do simbolismo das flores, a floriografia. Este mapeamento não é um fim em si mesmo, mas serve como base sólida para o segundo objetivo: realizar uma análise textual minuciosa da obra de Shakespeare à luz desse código simbólico. Por fim, e de modo mais amplo, esta pesquisa almeja utilizar as descobertas da análise literária como uma lente para examinar as estruturas sociais da época e como elas prevalecem nos dias atuais. O objetivo final é demonstrar como a linguagem cifrada das flores, especialmente na fala e nas ações da figura de Ofélia – como uma musa em declínio – opera como um sintoma de uma ordem social patriarcal e misógina. Ao evidenciar a necessidade de recorrer a subterfúgios e alegorias naturais para se expressar, a pesquisa visa iluminar os mecanismos sutis de opressão e as estratégias de resistência indireta disponíveis para as mulheres em um contexto histórico que sistematicamente lhes negava autonomia e voz pública. Dessa forma, o estudo transcende o âmbito literário, propondo-se a ser uma ferramenta de crítica social e reflexão no âmbito do direito.
Metodologia
A execução desta pesquisa será guiada por uma abordagem metodológica de caráter qualitativo e interdisciplinar, articulando os campos da História Cultural, da Análise do Discurso e dos Estudos Literários. O procedimento operacional dividir-se-á em três etapas principais, correspondentes aos eixos de investigação. A primeira etapa, de pesquisa exploratória e contextual, consistirá em um levantamento bibliográfico sistemático de fontes secundárias em relação à floriografia.
Discussão
A pergunta central é: “O que o uso da linguagem floral por uma personagem feminina revela sobre as estruturas de poder e as limitações impostas às mulheres?” Alguns exemplos de simbolismos centrais na trama:

Amores-perfeitos são para pensamentos, intimamente ligados à memória, de manter as pessoas em seus pensamentos. Simbolizando o seu luto.

Margaridas representam a inocência. Nota-se que Ofélia cita a margarida, mas não a entrega, sugerindo que o tribunal carece de inocência e pureza.
Conclusão
A hipótese da personagem Ofélia ter sua voz sufocada e se valer de artifícios enigmáticos como resposta à misoginia patriarcal foi testada e refinada através deste diálogo constante entre o texto literário e o seu contexto social, permitindo que a pesquisa conclua, de forma fundamentada, sobre como a floriografia serve tanto como um dispositivo literário quanto um sintoma histórico de opressão e um instrumento de resistência indireta. O estudo das flores em Shakespeare, portanto, vai além da análise literária; é uma chave para compreender os mecanismos sutis pelos quais os oprimidos encontram brechas para se fazerem ouvir.
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BIBLIOGRAFIA:
HARPER, Valentina. Hidden Language of Flowers. Design Originals, 2020.
KIRBY, Mandy. A Victorian Flower Dictionary. Ballantine Books, 2011.
KIRKBY, Mandy; DIFFENBAUGH, Vanessa. The Language of Flowers: a Miscellany. Macmillan, 2011.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Penguin, 2015.

