
Este presente texto busca fazer uma descrição acerca do último encontro do Clube de Leitura Clarice Lispector e Machado de Assis, que foi divido em quatro encontros coordenados pelas mestrandas do PPGD/UERJ, Aline Miguez e Carine Rocha, acerca de uma obra de cada autor, em que o último teve foco no romance Dom Casmurro.
O encontro foi divido em dois blocos: o primeiro acerca do reconhecimento internacional sobre Clarice e Machado; já o segundo bloco deu ênfase na complexidade da literatura de Machado de Assis, marcado por diversos recursos de riqueza linguística e social, mas também, como sua carreira de escritor serviu de base para uma ampla gama de críticas ao longo dos séculos e em conjunto, com um debate entre os presentes sobre a obra Dom Casmurro, que procurou, de forma muito interessante, ultrapassar as opiniões do senso comum – traição ou não traição de Capitu – para um olhar mais atencioso sobre outras figuras que circundam a obra e aos detalhes externos de cada personagem. Cabe ainda, associar toda essa discussão com a área do Direito e Literatura, em que como essas discussões contribuem para o crescimento e expansão das pesquisas, envolvendo assuntos da Filosofia, dos Direitos Sociais e a da Língua, ao trazer novas formas de se lidar com o Direito para algo que vá além de seu formalismo.
As histórias ao redor do mundo Toda a aclamação direcionada à Clarice Lispector na atualidade faz jus a sua grandiosidade poética e literária, sendo referenciada por escritores, críticos e celebridades, é uma das autoras brasileiras mais traduzidas e lidas (UNESCO, 2012). O mesmo é notório de se observar em Machado de Assis, estando frequentemente o autor em listas de livros mais vendidos no Brasil e em diversos países, além do prestígio de ser o escritor mais estudado no meio acadêmico (CNPQ). Há algo em comum entre esses dois escritores e não é apenas sua nacionalidade, mas sim o papel da tradução em suas obras. Dentre as mais diversas línguas, a tradução possui um elo importante entre o código, a interpretação e seu significado para o leitor. A exemplificação, a escritora e tradutora Karina Dodson, publicou uma coletânea The Complete Stories com, aproximadamente 86 contos de Clarice Lispector, em que durante o seu processo de tradução dessas obras para a língua inglesa, entrou em contato com expressões enigmáticas, em que não sabia ao certo se eram regionalismos ou metáforas, então, decidiu publicá-las com a tradução literal. Esse exemplo ajuda a compreender a riqueza que a tradução pode trazer, já que a partir de uma simples interpretação, é possível mudar toda o sentido do texto, mas também, é capaz de criar novos significados e assim, explorando ainda mais o conteúdo poético e interpretativo que o texto pode trazer. Clarice Lispector e Machado de Assis também traduziram autores/obras durante a carreira, dentre elas, as de Júlio Verne, Agatha Christie, Jorge Luís Borges – feitas por Clarice – ; Erlkönig de Johann Wolfgang von Goethe e The Raven de Edgar Allan Poe – feitas por Machado -.
Dom Casmurro Uma das obras mais reverenciadas e lembradas de Machado de Assis pelo público brasileiro. Conta a história de Bento Santiago, a partir de suas memórias que é narrada por fases: Pela infância, como Bentinho, em que é destinado a ser padre enquanto está apaixonado por Capitu; Na fase adulta, como Bento Santiago, já casado com Capitu e alimentando ciúme de Capitu e seu melhor amigo Escobar; Na velhice, como Dom Casmurro, tornando-se um senhor solitário e amargurado.
É inegável que, boa parte de sua popularidade circunda através da polêmica: “Capitu traiu ou não traiu?”, tanto que, é base de debate desde o séc XIX e sempre serve de exemplo para simulação em júris, chegando até ao STF, assunto que, irei abordar mais à frente. Contudo, a mera redução a esse tópico, de certa forma, reduz a grandiosidade da obra e do próprio Machado de Assis. Com isso, no Clube de Leitura, procurou-se ir um pouco mais além ao explorar outras interpretações para os personagens e novas questões. A exemplo do personagem José Dias, que como alguém de fora daquela família consegue enxergar formas de se manter presente ali, ao mentir se dizendo médico, mas ainda permanecer no vínculo. Também a forma como o Bentinho sempre se manteve dentro de um padrão e como isso o deixa limitado e corroído pelos próprios sentimentos, como sua obsessão e extrema desconfiança pela Capitu e Escobar, desde a adolescência e como isso se tornou trágico ao longo dos anos. Ainda vale destacar, o papel da Capitu, mas não apenas como a namorada/esposa do protagonista, mas como alguém capaz de criar uma nova vertente, que é capaz de mexer com a estrutura criada por Bentinho e como, por si própria, enxerga novas multiplicidades. Foi trazida pelo prof. Alexandre uma interessante analogia do romance com a ética deleuziana, através do movimento representado no livro pelo oceano, em que é utilizado como recurso poético por Machado de Assis (1899), mas também, é representado na morte de Escobar no oceano.:
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Direito e Literatura É de extrema relevância fazer uma ponte com o estudo do Direito e Literatura, junto com a circulação dos textos dentro das áreas de pesquisa e extensão. Um dos desafios no academia brasileira com a interseção entre Direito e Literatura, é a dificuldade, não só de metodologias, mas também de entender a ligação e com isso, há uso de um excesso jurídico na tentativa de interdisciplinação(Trindade e Bernsts, 2017). Um exemplo disso, foi o “O Julgamento de Capitu” com participação de ministro do STF à época José Paulo Sepúlveda Pertence. Entende-se a importância de se comemorar o centenário de Machado e não é isso a ser criticado, entretanto, essas redundâncias permitem propagar a limitação do texto e assim, dificultando a exploração de novas multiplicidades. Daí a importância dos grupos de pesquisa, revistas, como a RDL, que estimulam a produção acadêmica junto a Filosofia, Política, Literatura, o Direito e as Artes.


BIBLIOGRAFIA:
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Disponível em: file:///C:/Users/Home/Downloads/domCasmurro%20(1).pdf . Acesso em: 30 de jun.2025.
MIGUEZ, Aline. Fortuna Crítica e Dom Casmurro. 02 jul.2025. Apresentação de Power Point. Disponível: [Fortuna Crítica e Dom Casmurro[1].pdf. Acesso em:07 de jul.2025.
ROCHA, Carine. O reconhecimento internacional de Machado de Assis (1839-1908) e Clarice Lispector (1920-1977). 02 jul.2025. Apresentação de Power Point. Disponível: Machado de Assis e Clarice Lispector no exterior[1].pdf. Acesso em: 07 de jul.2025.
TRINDADE, A. K.; BERNSTS, L. G. O estudo do “direito e literatura” no Brasil: surgimento, evolução e expansão. ANAMORPHOSIS – Revista Internacional de Direito e Literatura, Porto Alegre, v. 3, n. 1, p. 225–257. Acesso em: 03 de jul.2025.

