Autores:
Aline Bastos Lomar Miguez
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
https://orcid.org/0009-0001-7433-8325
Alexandre Mendes
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
https://orcid.org/0000-0002-9405-8021
DOI: https://doi.org/10.12957/rfd.2026.93448
Resumo
O artigo apresenta um relato de experiência do projeto de extensão Escola Livre de Direito, Arte e Filosofia, vinculado ao Departamento de Extensão da UERJ (DEPEXT) e à Faculdade de Direito da UERJ, em parceria com o Pré-Vestibular Social do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro. A iniciativa, pautada em metodologias participativas e dialógicas, visa à preparação de estudantes para o vestibular da UERJ por meio do estudo crítico de obras literárias. O trabalho destaca o potencial pedagógico e transformador da extensão universitária ao articular saber acadêmico, práticas culturais e formação cidadã em territórios populares. Ao deslocar o ensino jurídico para espaços não convencionais como a escola de samba, a experiência promove a escuta, o acolhimento e a reconstrução de práticas educativas orientadas pelo encontro com o outro e pela valorização da diversidade.
Trecho do artigo:
(…)
O projeto se estruturou ao redor de uma ótica desafiadora: explorar o Direito fora dos espaços de justiça e mergulhando em espaços de cultura. Ao movimentar o olhar coletivo para as contribuições que a arte pode trazer às experiências de justiça, a proposta tradicional que procura o Direito no mundo artístico foi invertida. Essa lógica inversa pavimentou a experiência. Ao sair então dos tribunais, dasprisões e das salas da universidade, surgiu uma pergunta: de que forma seria possível contribuir para a construção da cidadania por meio da Escola de Samba do Salgueiro? A primeira forma de responder essa pergunta é outro afastamento da lógica tradicional: está-se diante de um intercâmbio de ideias, não de um trabalho voluntário.
A parceria com uma instituição cultural com a relevância social do Salgueiro permitiu ampliar o contato com a comunidade, estabelecendo trocas fora do ambiente acadêmico que enriqueceram a estrutura da Escola Livre com uma prática de escuta e entrega recíprocas. O início da colaboração foi marcado por uma roda de conversa na quadra de esportes do Salgueiro em outubro de 2023. A Escola Livre estava debatendo a obra A Queda do Céude Davi Kopenawa (2015) no Clube de Leitura Narrativas da Existênciaem encontros quinzenais que ocorreriam na Sala Mário Tavares do Theatro Municipal, enquanto o Salgueiro preparava o enredo Hutukara. Nesse encontro, debatemos a obra com os alunos e conversamos a respeito dos desafios do vestibular. A roda foi crucial para entendermos as particularidades da turma, com relatos sobre as suas rotinas, trajetórias acadêmicas e vivências na comunidade.Em dezembro, a Escola Livre integrou uma roda de conversa em parceria com o Instituto de Letras da UERJ e o enredista do Salgueiro, Igor Ricardo, ainda debatendo A Queda do Céu(2015) e aprendendo sobre o processo de criação do enredo. Essa experiência permitiu ainda mais entender o Salgueiro como um espaço plural, com um pré-vestibular que era consequência desse organismo vivo de cidadania.
Em 2024, todo o trabalho foi direcionado para o estudo das obras literárias obrigatórias do vestibular da UERJ, com destaque para As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Verissimo (2004). Pela alta acessibilidade do texto e pela linguagem direta do autor, foi possível estabelecer um engajamento ainda mais significativo nas aulas, com a realização de leituras coletivas e resolução de questões. O gênero crônica, por sua vez, revelou-se particularmente oportuno, considerando que, historicamente, se apresenta ao leitor jovem de forma acessível, envolvente e agradável. Um dos debates mais marcantes foi a leitura da crônica Aliança. Na história, um homem fura opneu, vai tentar trocar sozinho e acaba sujando a mão de óleo. A aliança dele escorrega e cai no bueiro. Depois, ao chegar em casa, visivelmente desgastado, a esposa logo pergunta onde está a aliança. Ele, então, decide afirmar que estava em um motel traindo-a, ao que ela responde: “tudo bem, pelo menos você não mentiu pra mim”. A partir desse episódio, foi possível analisar o humor presente na narrativa e, para além da identificação de figuras de linguagem, refletir criticamente sobre o conceito de verdade e o surrealismo frequentemente presente na vida cotidiana (Verissimo, 2004, p. 37-38).
Esse episódio foi valioso, porque estávamos diante de uma turma jovem, curiosa e que atravessando um rito de passagem imposto socialmente, mas, paradoxalmente, não acessível a todos. Analisar as camadas das verdades construídas foi uma ferramenta crítica que não poderia ter se dado em um ambiente fechado de justiça, mas, sim, em um ambiente de ensino e de exercício de direitos. Como parte da preparação para o vestibular UERJ de 2025, foram promovidos diversos encontros dedicados à leitura e análise da obra Quincas Borba, de Machado de Assis (2006), um dos autores mais emblemáticos da literatura brasileira. A atividade teve como objetivo não apenas oferecer subsídios para a prova, mas também estimular o pensamento reflexivo dos estudantes a partir de um clássico da literatura nacional.Os encontros aconteceram na sala de aula, mas a configuração do espaço físico foi alterada.
Ao invés de mesas enfileiradas voltadas para o quadro, adotou-se o formato em semicírculo, garantindo maior horizontalidade, participação e interação dos alunos comos pesquisadores. Foram realizadas leituras compartilhadas com trechos previamente selecionados e distribuídos entre os participantes. Em vez de uma abordagem expositiva tradicional, os alunos foram convidados a levantar hipóteses, debater interpretações e relacionar o texto com questões sociais contemporâneas. Considerando que o tempo de aula e a quantidade de encontros não permitiam a leitura integral das obras em sala, os estudantes eram também estimulados a dar continuidade às leituras em casa, com apoio de guias de leitura produzidos pelo grupo. Para fomentar esse engajamento e garantir o acesso ao material, foram sorteados exemplares dos livros estudados, o que contribuiu para fortalecer o vínculo dos alunos com o projeto e ampliar o alcance formativo da atividade para além dos encontros presenciais.
Durante os debates, exploramos características marcantes da obra, como a ironia; os aspectos filosóficos ligados ao Humanitismo, a pseudofilosofia criada por Quincas Borba; o realismo; o humor fino; a composição psicológica dos personagens e a representação do Brasil e do Rio de Janeiro na narrativa. Dedicamos importante tempo de aula à crítica social presente no enredo, especialmente nas figuras de Rubião e daqueles que o rodeiam, evidenciando a dissimulação e os jogos de interesse da elite imperial brasileira, tão bem representados no texto machadiano.
A cada encontro os alunos demonstraram maior engajamento, tanto na leitura quanto nas discussões. Muitos se identificaram com os conflitos e perceberam como Machado de Assis constrói personagens que transcendem o seu tempo e continuam provocando reflexões sobre a condição humana, o poder e as relações sociais.Como resultado, além da preparação técnica para o vestibular, o grupo desenvolveu maior autonomia, capacidade argumentativa e sensibilidade para os aspectos éticos e sociais presentes na Literatura. A experiência reforçou o valor da leitura compartilhada edo diálogo como caminhos potentes para a formação crítica dos estudantes.Além do foco na interpretação do texto, as aulas eram divididas de acordo com as exigências da prova seletiva, o que levou à resolução de problemas em sala de aula, ênfase nas figuras de linguagem, deveres de casa com correções nas aulas posteriores e resolução de questões de provas anteriores da UERJ. Ao final, como estímulo ao hábito de leitura dos estudantes e a valorização dos livros, foram sorteados três exemplares de Quincas Borba (2006).
(…)
Para o artigo completo, consultar: n. 45 (2026): Revista da Faculdade de Direito da UERJ – RFD – https://www.e-publicacoes.uerj.br/rfduerj/article/view/93448
Como Citar
Bastos Lomar Miguez, A., & Fabiano Mendes, A. (2026). Direito, Literatura e Extensão: A experiência universitária no pré-vestibular social. Revista Da Faculdade De Direito Da UERJ – RFD, (45). https://doi.org/10.12957/rfd.2026.93448

